A maior mancada de viagem: no limbo entre EUA e Canadá

A jornalista Yana Lima zerou o significado de imprevistos de viagem com o relato sobre sua maior mancada até hoje, na fronteira entre EUA e Canadá.

A Luiza ainda nem pensava em ir pro Canadá e lá estava eu, pronta para dar mais um check no mapa mundi da vida. Mas antes de chegarmos a este ponto, vamos rebobinar um pouco essa fita (entregando a idade em 3, 2, 1…). Era uma vez em Chicago, maio de 2008, cinco brasileiras morando há pouco mais de quatro meses nos Estados Unidos. Sedentas por um feriado, não víamos a hora de nos jogarmos na nossa primeira roadtrip.

 

Toda vez que conto essa história ela me parece mais e mais absurda. Por isso decidi patentear aqui no Entre Rumos aquele que foi certamente, o momento mais TAPADO da minha jornada de viajante.

 

Tínhamos 4 dias (se não me falha a memória), alguns dólares e um carro alugado – UHUUUUL! Pra quem não é familiarizado com o mapa dos EUA, Chicago é uma linda cidade da região centro-norte, banhada pelo Lago Michigan – e com um inverno que dura seis meses, benzadeus! Nas proximidades estão os estados de Indiana, Wisconsin, Michigan – super turísticos, clima gostosinho e cheio de coisa pra fazer – SQN! Nossa meta era escolher o melhor lugar num raio de poucas centenas de quilômetros para aproveitarmos os dias de folga. Foi aí que…

…era uma vez em Detroit. Sim, o destino escolhido foi a capital de Michigan, cidade da General Motors (era tudo o que sabíamos quando decidimos ir).

Empolgação em Detroit
Empolgação em Detroit

O que tem lá? Revisitando minhas fotos e algumas lembranças, concluo que não havia nada de muito interessante. Mas estávamos ao lado de uma cidade universitária, Ann Arbor. Sabe o que isso significa? NADA! No feriado todos os estudantes tinham vazado para fazer qualquer coisa melhor. Sobrou a gente tirando foto na Michigan University, nas repúblicas da Michigan University, com os esquilos da Michigan University, no barzinho frequentado por alunos da Michigan University e no estádio… vocês sabem o resto.

Michigan University... vazia.
Michigan University… vazia.

Entre Ann Arbor e Detroit, e muita falta de vergonha na cara, como podem ver na imagem seguinte, nos entediamos certa vez, a beira do Rio Detroit, que divide a cidade com Windsor, Canadá.

POR QUE, SENHOR? POR QUEEEEEEEE FAZER ISSO NO MEIO DA CALÇADA?
POR QUE, SENHOR? POR QUEEEEEEEE FAZER ISSO NO MEIO DA CALÇADA?

– Gente, queria ir lá, o que será que precisa?

– A Sully tirou o visto canadense lá no Brasil mesmo. Mas acho que foi caro.

– Vamos perguntar pro policial?

[Pausa para extra: Sully era uma au pair que conhecemos no treinamento quando chegamos ao EUA e que foi morar em Ann Arbor. Estando tão próximo da fronteira, ela tirou o visto dos dois países]

– Excuse me, Sir. What do we need to go to the other side?

– An ID.

– An ID? Driver License? Just it?

– Just it.

Todas nós tínhamos a carteira de motorista americana, que tiramos logo no início do intercâmbio. Isso significava que: VAMOS PRO CANADÁ! O policial americano abriu as porteiras do céu pra gente naquele exato minuto. Transformou nossa roadtrip monótona em uma viagem duplamente internacional. Vamos pra Windsor tomar um café, tirar umas fotos e esbanjar metideza no Orkut.

OMG!
OMG!

Entramos no carro, esticamos a bandeira do Brasil pra fora da janela e soltamos um Zeca Pagodinho no último volume do carro. Acha que eu tô brincando? Exagerando? NÃO! Foi exatamente assim. Não sei por que fizemos isso. Nunca fui fã de Zeca Pagodinho, mas acho que quando você está morando no exterior sofre uns ataques repentinos de patriotismos fora de hora, que não têm muita explicação. Enfim, atravessamos um túnel enorme, que ligava Detroit a Windsor. Quando chegamos do outro lado, tinha esse “pedágio” aí:

Pedágio na entrada do Canadá
Pedágio na entrada do Canadá

Nossa vez. A senhora do “guichê” pediu nossos passaportes. No volante, a colega que melhor falava inglês, repetia pra gente o que estava sendo dito. Entregamos a driver license americana, aquela que o policial havia nos informado. A mulher do guichê repetiu um pouco mais alterada:

– Passports?

[A continuidade do diálogo é tradução livre]

– Não temos. Só temos as drivers license.

– O que vocês querem fazer no meu país?

– Tomar café e tirar umas fotos. [Como tivemos coragem de proferir em voz alta um pensamento xucro desses?]

– Vocês estão tentando entrar no meu país sem passaporte para tomar café e tirar fotos?

Nesta hora, a amiga do volante já desconfiava que o diálogo estava ficando pesado, foi ficando sem graça, sem resposta, mas eu logo me prontifiquei:

– Gente, paga logo esse pedágio e deixa essa véia pra lá.

Bastante irritada e perplexa, a “véia do pedágio” mandou a gente passar a cancela e virar à primeira direita. Fizemos o combinado, já comemorando – e nem tivemos que pagar! Entretanto, viramos na segunda direita. Paramos o carro para decidir onde iríamos tomar o café, mas isso pouco importava. ESTÁVAMOS NO CANADÁ

PARA FICAR MAIS CLARO, ERA PARA TER VIRADO À DIREITA NA SETA AMARELA. NÓS VIRAMOS NA VERMELHA!
PARA FICAR MAIS CLARO, ERA PARA TER VIRADO À DIREITA NA SETA AMARELA. NÓS VIRAMOS NA VERMELHA!

Em poucos segundos, estávamos sob luzes de holofotes, cercadas por carros de polícia, com homens fardados gritando em alto-falantes para deixarmos o veículo imediatamente. Eles pegaram nosso carro e mandaram a gente voltar, caminhando na linha amarela, para o pátio do pedágio – a direita correta onde deveríamos ter virado. Ainda sem entender, mas percebendo o cheiro de cagada, fomos andando na direção apontada.

– EU DISSE NA LINHA AMARELA!

Assim mesmo, em caps lock, o cara mandou a gente ir em fila indiana, na linha amarela. Chegamos numa sala, esperamos para ser atendidas e lá dentro outra senhora perguntou como havíamos entrado no país sem passaporte e visto. Atestado de burrice garantido. Foi nessa hora – e só nessa hora (pasmem!) – que entendi o que estava acontecendo. Éramos imigrantes ilegais no Canadá! Aham, clandestinos, como diria Manu Chao. Aliás, trilha sonora perfeita para terminar a leitura. Clique na imagem.

A multa era de 10 mil dólares por pessoa. Nessa hora começou o choro, desespero, melodrama. Estava mais do que claro que não fizemos isso de propósito e a polícia canadense havia entendido. Depois de algum tempo esperando, fomos chamadas para assinar um documento que perdoava a dívida e nos autorizava sair do Canadá. UFA! Fomos até o pátio pegar nosso carro, mais aliviadas, e na saída um dos guardas de fronteira se despediu:

– Boa sorte lá, do outro lado.

PQP! Como vamos entrar nos EUA sem documento? A gente era pamonha no quesito Canadá, mas a imigração americana nós conhecíamos bem. Quem já entrou no país sabe a burocracia e o saco que é passar por isso. Voltamos pelo túnel, sem café, sem fotos e sem passaporte. Estávamos no limbo. Nem EUA, nem Canadá.

O limbo se parece com isso aí, ó.
O limbo se parece com isso aí, ó.

Explicamos a situação na imigração americana e ficamos de molho sentadas numa sala, de frente para um agente. A essa altura o choro piorava. O problema também. Se não me falha a memória, uma das meninas estava quase fazendo xixi nas calças e eles não deixaram ir ao banheiro. Foi quase uma tortura psicológica. Enquanto isso passava muita gente pela sala. Lembro que vi um latinoamericano (facilmente identificável pelos traços) passando de macacão laranja. Graças a Hollywood, eu sabia o que aquilo significava, e isso que Orange is The New Black ainda nem existia. Algumas horas depois, sem comida, sem banheiro, eles puxaram o histórico de cada uma de nós pela carteira de motorista. Ligaram para as famílias, identificaram nossa agência de intercâmbio e, depois de uns puxões de orelha, finalmente nos liberaram. Fomos direto para um restaurante. Lembro até qual foi: Ihop!

Sãs, salvas, humilhadas porém felizes indo comer no Ihop!
Sãs, salvas, humilhadas porém felizes indo comer no Ihop!

Não sei com quem ficou aquele documento que nos autorizava sair do Canadá. Também não sei se meu nome está “sujo” por lá. Ouvi dizer que só poderíamos voltar depois de dez anos. Se é verdade ou não, prefiro não arriscar. Deixo pra trás um check que talvez nunca aconteça e um passado bagaceiro que não me pertence mais!

 

 


Yana Lima está vivendo o Retorno de Saturno e não conseguiu encontrar ainda uma definição para si própria – ou falar de si na terceira pessoa. Para aqueles que preferem uma descrição tradicional, é nascida na pequena cidade mineira de Ervália, formada em Jornalismo e especialista em Marketing. Tem sangue libanês e um amorzinho pela a América Latina. É de natureza tagarela e possui um sutil talento para conversar com qualquer um que lhe cruzar o caminho.

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